![]() | ![]() 29/11/2009 |
DOIS GATINHOS VIRA-LATAS AINDA NÃO ESPANTARAM OS CAMUNDONGOS DA CASA, MAS A ADOÇÃO DELES JÁ SURTIU EFEITO: REDUZIU A NINHADA DE UMA ONG
Luna & Linopor Laura Capriglione Acostumada que estava ao ambiente rarefeito do nono andar onde eu morava, confesso que me assustei com os excessos de vida que se imiscuíram na minha depois que me mudei para uma casa -ao rés do chão, portanto. Descobri, por exemplo, que, muito mais do que supunha, o bairro do Paraíso (zona sul de SP) tem uma fauna infernal de pernilongos, taturanas, lagartixas, caramujos. E camundongos! Um microrroedor desses apareceu no quintal num domingo à tarde. Transformou o almoço alegre à sombra da jabuticabeira em muitos, muitos, muitos e muitos decibéis de gritaria, gente empoleirada na mesa e nas cadeiras -exageros de comédia. Não demorou e o valente cunhado preparou-se para a luta. Estava de short e chinelos, que substituiu como por encanto por botas. Assim, super-herói improvável, deu cabo do ratinho -ninguém quis ver ou saber como. Logo apareceram os apocalípticos: "Vida em casa é assim mesmo, prepare-se". Bem que eu tentei um repelente eletrônico, emissor de frequência de som só percebida por ratos. Por exigir fé maior do que sou capaz, desisti do artefato. Os mata-ratos eu já descartara. Sei lá, podiam envenenar outros bichos, a água, crianças -não quis arriscar. O jeito foi encarar a saída "Tom & Jerry", agora torcendo pelo Tom (nada como a vida real!). Noite chuvosa, lá estávamos em um chique apartamento da rua Frei Caneca, na região central da cidade, habitado por dois humanos e 40 gatos de todas as idades, cores e poses. Tudo limpíssimo, confirmava-se a tese de que os gatos são seres autolimpantes. Performance de pantera Luna e Lino, vira-latas puros-sangues, dois meses de vida, nasceram em uma ninhada de oito filhotes, dos quais um morreu logo de cara. A mãe vivia nos becos e vielas da favela do Moinho, bairro de Campos Elíseos (região central), e foi lá, ao relento, que ela deu à luz os filhotinhos. Albert Viana, dono do apartamento, a partir de denúncia de abandono, foi à favela e resgatou os sem-teto. Castrada, a gata foi devolvida ao local, ao qual já estava acostumada. Os filhotinhos ficaram com Albert, que lhes providenciou abrigo, alimentação, vacinação, vermifugação e castração -à espera de quem os adotasse. A Toca dos Gatinhos, ONG de militantes que Albert fundou com amigos, tem esse propósito: buscar um lar para gatos abandonados e carentes de São Paulo e tentar evitar a proliferação do abandono. Cálculos bem estabelecidos mostram que a esterilização de uma única fêmea evitará o nascimento, em sete anos, de 509.097 gatos. Logo, basta que mil fêmeas sejam esterilizadas para que se tenha 509 milhões de gatos a menos em sete anos. Menos abandono também. Luna é clara, tem pelos em tons "nude" (está super na moda) e olhos azuis. Já Lino é do tipo "frajola", preto e branco -mais comum, impossível. Fomos com o intuito de encontrar Luna, que já havíamos visto no site tocadosgatinhos.blogspot.com. Mas Lino fez de tudo para que o levássemos junto. Performance de pantera em formato de bolso, ronronados, olhares, risadas -um sedutor (e risonho, sim). O humano Albert não nos deu moleza. Obrigou-nos a preencher um questionário, interrogou-nos, perguntou que ração daríamos se aprovados fôssemos, recriminou nossa opção, fez-nos assinar um termo de compromisso. Para ajudar a manter o trabalho da Toca, demos a Albert R$ 100. O mundo tem hoje menos dois gatinhos sem-teto, e a minha casa ganhou dois mínimos tigrinhos, que brincam o dia todo, quando não dormem. Ratos, camundongos e "Jerry" tremem. |


